Entrevistas

Paulo Sergio Pavinato, professor da Esalq, fala sobre a utilização de fertilizantes no cerrado brasileiro e na cana-de-açúcar

Em entrevista ao GlobalFert, Paulo Sergio Pavinato, professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ – USP, comentou sobre a utilização de fertilizantes no Brasil, com foco no cerrado e na cultura da cana-de-açúcar.

Pavinato possui graduação em Agronomia e mestrado em Ciência do Solo pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, e doutorado em Agronomia/Agricultura pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Botucatu – SP. A sua área de atuação na docência e pesquisa é em Fertilidade do Solo e Adubação, envolvendo manejo de fertilizantes e adubação em sucessão de culturas, bem como estudo da dinâmica do fósforo no solo em sistemas de produção, envolvendo plantas de cobertura e manejo do solo. Também tem atuado na pesquisa e desenvolvimento de fertilizantes fosfatados.

 

A utilização de macronutrientes como N, P e K são essenciais para o aumento da produtividade e, consequentemente, maiores lucros na produção. Entre estes macronutrientes, é possível determinar qual é mais limitante para o desenvolvimento das culturas nos solos do Brasil?

Todos os macronutrientes tem papel importante na nutrição das plantas e precisam ser supridos em quantidades adequadas para que as culturas completem seu ciclo com alta produtividade. De maneira geral, o suprimento de N é de suma importância para as culturas que não fazem fixação biológica, como as gramíneas (família das poáceas) em geral, incluindo aqui o milho, trigo, etc., pois essas culturas demandam alta quantidade de N (100-300 kg/ha) e o solo não é capaz de suprir essa demanda em quantidade satisfatória. Já o P e o K devem ser supridos via fertilizantes quando os teores disponíveis destes nutrientes no solo são limitantes, ou para reposição da extração das culturas e consequente manutenção dos níveis disponíveis no solo. O P é muito limitante quando em áreas recém-abertas. Há necessidade de aplicação de fertilizante fosfatado em praticamente todas as áreas cultivadas, pois se busca manter sempre os teores adequados de disponibilidade no solo, bem como a eficiência de aproveitamento do fertilizante pelas plantas é bastante baixa em solos brasileiros (média de 50%). Dessa forma, se não fertilizar com P em todos os anos vai haver redução da disponibilidade no solo, pois nossos solos têm alta capacidade de adsorção/fixação de P, convertendo o mesmo para formas não disponíveis. Já o K precisa ser fertilizado em função da alta demanda das culturas (mais de 300 kg/ha absorvidos pelo milho de alta produtividade, por exemplo) e da baixa capacidade dos solos em estocar esse elemento, que é dependente diretamente da CTC do solo.

Em síntese, os três macronutrientes (N-P-K) são importantes e limitantes para a produtividade nos nossos solos, um será mais ou menos importante que o outro em situações específicas da espécie cultivada e da disponibilidade deles no solo.

 

A Ureia é a principal fonte de nitrogênio utilizada na agricultura brasileira. Através de pesquisas realizadas, foi possível desenvolver formulações de fertilizantes nitrogenados que minimizam a volatilização de amônia e lixiviação de amônio e nitrato?

Sim, é possível reduzir as perdas por volatilização de amônia (NH3) proveniente da ureia com uso de inibidores de urease, são compostos orgânicos (NBPT) ou minerais (Cobre e Boro) adicionados à Ureia na indústria via revestimento, para que a mesma persista como Ureia no solo por mais tempo, dando chance de ser incorporada via chuva ou irrigação antes que as enzimas façam a quebra da molécula e o N fique disponível em solução. Os resultados têm sido satisfatórios para até 14 dias sem chuva após a aplicação do fertilizante. Outra forma eficiente de evitar a volatilização é usar fontes que não formam NH3 em superfície durante o processo de solubilização, como é o caso do Nitrato de Amônio (NA) e do Sulfato de Amônio (SA). Vários resultados de pesquisa têm comprovado que o uso de NA ou SA minimizam em mais de 90% as perdas de N por volatilização quando aplicados em superfície quando comparados com a Ureia.

Já o processo de lixiviação é mais difícil de controlar, pois qualquer forma de fertilizante nitrogenado (Ureia, NA, SA, MAP, DAP) vai acabar disponibilizando o N na forma de nitrato no solo (NO3) em função das transformações promovidas por microrganismos de vida livre. Dessa forma, a lixiviação de nitrato (ou amônio) vai depender diretamente do regime de chuvas, havendo mais passagem de água no perfil vai potencialmente promover mais descida de N para camadas mais profundas no solo. Já foram testados alguns produtos como inibidores de nitrificação (DCD, Nitrapirina), para evitar ou retardar que o amônio passe para nitrato na solução do solo, mas os resultados não foram satisfatórios nas condições brasileiras.

 

O fósforo, é utilizado nas plantas para o armazenamento e transferência de energia e, sua deficiência causa baixa germinação, pouco desenvolvimento do sistema radicular e arroxeamento das folhas velhas. Quais os tipos de fertilizantes fosfatados mais utilizados no Brasil?

 Os fertilizantes fosfatados mais utilizados no Brasil e no mundo de maneira geral são aqueles de alta solubilidade, envolvendo aqui superfosfato simples (SSP), superfosfato triplo (TSP), fosfato monoamônio (MAP) e fosfato diamônio (DAP). Todos os fertilizantes formulados vendidos no Brasil são derivados dessas matérias primas mencionadas acima. Hoje, das mais de 11 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados utilizadas no Brasil, menos de 3% é proveniente de outras formas, como termofosfatos e fosfatos naturais reativos.

A pesquisa, tanto pública como privada, está buscando por novas tecnologias em fertilizantes fosfatados de maior eficiência. No entanto, o manejo deste fertilizante nas lavouras e o comportamento do nutriente P no solo tem sido um grande empecilho para isso. Como o P é relativamente imóvel no solo, seu fornecimento precisa ser próximo da região de exploração das raízes para ter maior eficiência, consequentemente precisa ser fornecido no momento da implantação das culturas. Existem tecnologias no mercado que buscam essa maior eficiência, tanto revestindo os fertilizantes com polímeros, encapsulando ou complexando os mesmos para que a solubilidade seja mais lenta, tentando dessa forma sincronizar com a demanda da planta. Mas essas tecnologias acabam encarecendo muito os fertilizantes, o que limita o uso por parte dos agricultores.

 

De acordo com informações da Agência Embrapa de Informação Tecnológica, a torta de filtro é um resíduo das usinas sucroalcooleiras, com concentração de 1,2 a 1,8% de fósforo e 70% de umidade. Atualmente, está sendo amplamente utilizada como fertilizante orgânico nas áreas de cana-de-açúcar, com aplicação em área total, entrelinhas de cana-soca e no sulco de plantio. Assim, é uma opção de fertilizante para que as usinas consigam reduzir o custo na compra de adubos. Na sua visão, a utilização de fertilizantes fosfatados associado à torta de filtro para a cultura da cana-de-açúcar, é eficiente? É possível substituir totalmente o uso de fertilizantes fosfatados por torta de filtro nas áreas de cana-de-açúcar?

A torta de filtro é uma excelente fonte de nutrientes, especialmente P, para a cana-de-açúcar. Em artigos recentes publicados pelo nosso grupo de pesquisa e também por outros colegas da área, comprovou-se que a utilização de torta de filtro no plantio da cana promove incrementos de mais de 10 t/ha de ganho na produtividade de cana-planta. No entanto, não detectamos efeito residual desse produto na produtividade da cana soca nos anos seguintes, mas houve efeito residual de P disponível no solo até o final do segundo ciclo. Embora sabendo que a torta de filtro traz inúmeros benefícios químicos, físicos e biológicos para o solo, a associação de torta de filtro com fertilizantes fosfatados não melhorou a eficiência desses fertilizantes fosfatados no plantio da cana, tanto de fontes solúvel (TSP) como fosfato natural reativo. Ou seja, os efeitos esperados dos compostos orgânicos presentes na torta não foram eficientes para aumentar a disponibilidade de P proveniente dos fertilizantes.

É possível substituir totalmente a adubação fosfatada com torta de filtro, uma vez que conforme mencionado os teores de P na torta são altos (1,2-1,8% de P2O5). Dessa forma, a aplicação de 10 t/ha de massa seca (ou ~20 t/ha de produto húmido) no fundo do sulco de plantio vai adicionar em torno de 120-180 kg/ha de P2O5, suficientes para o bom desenvolvimento inicial da cana. A aplicação de torta em soqueira também é uma alternativa viável, ainda mais se essa torta for melhorada na compostagem com adição de outros nutrientes como K, Ca e S, através da inclusão de KCl e gesso, como algumas usinas no estado de SP tem feito.

Mas pensando no geral da área de produção de cana, de quase 10 milhões de ha no Brasil, infelizmente não é possível substituir o fertilizante fosfatado pela torta para todas as áreas, pois a geração de torta de filtro seria suficiente para suprir as doses mencionadas acima para apenas em torno de 10% da área total cultivada. Demandando, portanto, a adição de ainda muito fertilizante fosfatado para as demais áreas não hábeis para receber a torta. Esse fornecimento da torta hoje em dia ainda está mais acessível em áreas próximas à usina, devido ao custo do frete que acaba encarecendo e restringindo o uso deste nobre produto.

 

 No cerrado, os solos possuem alta acidez e baixos teores de nutrientes disponíveis, por isto, necessitam da utilização intensa de corretivos e fertilizantes para possibilitar a agricultura. Através de suas pesquisas realizadas, foi possível observar se há alteração na disponibilidade de fósforo no solo comparando o sistema convencional com plantio direto?

De maneira geral não, temos avaliado inúmeros experimentos de longa duração no cerrado (12 a 18 anos) e em algumas situações detectamos mais P na camada de 0-5 cm no PD em relação ao convencional, mas na maioria dos experimentos o teor é bastante semelhante. E quando se trabalha com a média dos teores na camada de 0-20 cm fica tudo igual entre os manejos mencionados. Outros trabalhos realizados pela Embrapa Cerrados também têm mostrado que o sistema PD e convencional não alteram a disponibilidade de P na camada de 0-20 cm, embora comprovadamente há maior acúmulo de P na camada de 0-5 cm em PD contínuo. Também nestes trabalhos nossos e da Embrapa não foi detectada diferença na produtividade acumulada das culturas entre os sistemas, embora saibamos que há inúmeras vantagens do PD em outros fatores, como qualidade do solo e redução do consumo de combustíveis.