Entrevistas

Clóvis Galante Filho, presidente do conselho administrativo da Indag, fala sobre desafios e perspectivas para a produção de fertilizantes

Na entrevista de hoje, conversamos com o presidente do conselho administrativo, Clovis Galante Filho, possui mais de 55 anos de experiência no mercado, trás informações sobre as perspectivas e os desafios enfrentados na produção de fertilizantes no Brasil.

Globalfert: Olá, seja bem-vindo para mais um conteúdo do Globalfert. Hoje nós recebemos para entrevista o Clovis Galante Filho, que é administrador, contador e economista. Com mais de 55 anos de experiencia no mercado de fertilizantes, na IAP. Gostaria de começar perguntando: Como o mercado de fertilizantes mudou nesses últimos 10 anos, tivemos várias aquisições entre as indústrias, o que você acha que contribuiu para que isso acontecesse?  

Clovis Galante: Boa tarde! O que aconteceu foi uma consolidação das empresas e unidades de produção que já existiam. Na verdade, elas não mudaram, todas têm 45 anos ou mais. Hoje, essas unidades que já pertenceram a outras empresas, inclusive aquelas que construíram e iniciaram os investimentos, pertencem a três produtoras, que é a Mosaic, a Yara e a CMOC. A Petrobras, que foi importante na produção de nitrogenados, Amônia e Ureia, fechou as únicas três fabricas que tinha no Brasil. A última, em Araucária no Paraná, que foi nossa, inclusive, infelizmente, fechou esse ano. Não sei a razão, mas provavelmente é porque é um segmento que deixou de interessar à Petrobras ou, pelo alto custo que temos no Brasil, e tem deixado de viabilizar a melhor produção. 

Globalfert: Mesmo com essas indústrias que temos no Brasilainda somos muito dependentes das importações desses insumos. Quando a gente pensa em Cloreto de Potássio, por exemplo, temos uma produção muito pequena que mal atende às necessidades locais, então acabamos importando muito fertilizante. Gostaria de saber como você enxergar isso para os próximos anos, será que existe uma possibilidade de redução da dependência do mercado internacional? 

Clovis Galante: Não, pelo contrário. Bom, você citou o cloreto de potássio, esse é um produto que a nossa produção é incipiente: produz entre 450 e 600 mil toneladas no Sergipe. É a única mina que existe no Brasil, fora isso não existe nenhuma outra conhecida que possa ser viável. Mas o problema está, em primeiro lugar, no nitrogênio, que a gente importa 95% e, no fósforo em segundo lugar, que se importa 65%. Não vejo nenhum novo investimento, a não ser a Yara que construiu uma fábrica em Sali, Minas, numa mina que é dela comprada da Galvani e, tem capacidade para produzir 300 mil/t de P2O5 lá, esse é único investimento que existe aqui no Brasil, fora esse não tem nenhum. Ou seja, nossa independência só vai aumentar ano após ano, no N vamos chegar a 98% de importação e no fósforo 80%. Nos próximos 20 anos, caso nenhuma fábrica nova for construída. 

Globalfert: Isso faz todo o sentindo quando olhamos como o agronegócio no Brasil está crescendo e estamos produzindo cada vezVocê enxergar alguma maneira de negociar melhor os insumos, trazer esses produtos com um custo mais baixo e competitivo para o mercado nacional? 

Clovis Galante: Não, pelo contrário, quanto mais aumenta a nossa dependência no mercado internacional, menor é a nossa condição de negociar. Os fertilizantes são produzidos em vários países do mundo, e são vendidos ao mundo inteiro a Preços internacionais. O Brasil, além de ser o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, também está no hemisfério sul cuja safra é ao contrário da safra do hemisfério norte, então enquanto nos Estados Unidos e na Europa estão plantando, consumindo adubo, nós não estamos plantando nada, estamos colhendo e vice e versa. Então, o Brasil é muito importante não só por causa do volume que consome hoje e vai consumir no futuro, mas também pela época na qual que ele consome. As fábricas precisam produzir 12 meses do ano. O Brasil é um cliente muito importante para o mundo, mas realmente não temos condição de negociar por conta da dependência que temos do mercado externo. 

Globalfert: Você trouxe a informação que o Brasil é o quarto maior consumidor, nós também enxergamos dessa maneira. O segundo maior consumidor é a Índia e estamos observando o governo local se mobilizando e incentivando a produção interna de fertilizantes, então, a expectativa é de aumento da produção nos próximos anos. Existe algum tipo de incentivo aqui do governo brasileiro, para aumentar essa produção nacional, incentivo para as empresas que já temos hoje? 

Clovis Galante: Não existe qualquer incentivo. Pretendemos fazer uma fábrica no Brasil, mas não existe qualquer incentivo, existe apenas no teórico, como linhas de créditos etc. O pior é o ICMS, que inibe qualquer investimento, porque para vender outros estados fora de onde está sua produção, paga-se ICMS, isso é um desincentivo e desestímulo para a produção nacional, pois deveria ser zero, porque a importação de qualquer lugar do Brasil paga zero de tarifa. Por exemplo, para a Yara e a CMOC venderem fertilizantes fosfatados que são produzidos em Minas e Goiás para fora desses dois estados, elas devem pagar ICMS. Então isso é um desestímulo ao investimento aqui no Brasil, sendo uma das razões de não ter perspectivas de investimentos novos aqui. Além de não ter matéria-prima em abundância, a não ser as minas de fosfatados que já estão exploradasTem uma mina importante, que é em Minas, a Patrocínio que pertence a Mosaic, e têm um bom teor de fosfato para o Brasil, 10% de P2O5, porém não existe nenhum plano de investimento para se fazer lá e não existe nenhuma outra com importância para o Brasil. Nitrogênio é o Gás, que aqui no Brasil é muito caro, então se importa a preço internacional, o potássio não existe, o Brasil consome 11 milhões de toneladas de cloreto e produz 400 mil em Sergipe, longe do mercado, mas pelo menos fornece para o nordeste. Não vejo aí nenhum investimento sendo feito, iremos continuar na situação atual e aumentando o consumo de fertilizantes, e daqui vinte anos iremos consumir e produzir o dobro. 

Globalfert: Trazendo então em poucas palavras, pelo que você me contou, é um seguimento que possui muitos desafios, encontra empecilhos e ao mesmo tempo é tão importante para a economia do nosso país, e por isso precisamos dar mais atenção para isso e valorizar esse segmento tão relevante para a gente.